Cultura arrozeira: costumes e rituais

Como um dos cereais mais ancestrais da Terra, o arroz foi venerado por todos aqueles que o provaram, até se converter numa forma de pensar, numa cultura em si mesma e numa tradição milenar.

O arroz cruzou todas as fronteiras possíveis, tendo mesmo penetrado nas línguas com uma lógica própria. Em chinês clássico, “arroz” e “agricultura” definem-se com a mesma palavra. As palavras “arroz” e “comida” são, por vezes, equivalentes. Em lugar de dizer: “Como está?” para cumprimentar, os chineses perguntam: “Já comeu arroz hoje?”. E outra expressão chinesa diz “parte-se o prato de arroz”, quando alguém é despedido ou rejeita um trabalho. Por seu lado, os japoneses, inclusivamente hoje, referem-se a este cereal como a sua “mãe” e consideram os agricultores arrozeiros como guardiães da sua cultura e do campo.

COSTUMES DE OUTRORA, RITUAIS DE AGORA
Devido à relevância do arroz, certos costumes e rituais derivados da relação entre as pessoas e este alimento continuam ainda hoje a cumprir-se. A comprová-lo está o seu protagonismo nos casamentos. Em todo o mundo, continua-se a atirar arroz aos recém-casados como símbolo de abundância e fertilidade. Na China, previnem as mulheres jovens de que “cada grão de arroz que deixarem no prato será uma cicatriz de bexigas na cara do seu futuro esposo”. No Japão, onde os campos de arroz recebem nomes de pessoas, acreditam que demolhar o arroz antes de o cozinhar liberta a energia vital e dota o comensal de uma alma mais poderosa. O imperador celebra uma cerimónia em que oferece arroz a Amaterasu, a Deusa do Sol, simbolizando assim a salvação da espécie humana. E ainda, na Índia, o arroz é o primeiro alimento que a noiva oferece ao marido. Um provérbio diz que “os grãos de arroz devem ser como dois irmãos: íntimos mas não unidos”. E na Indonésia, nenhuma mulher está preparada para o matrimónio, se não souber cozinhá-lo bem.

Cabe destacar o arroz nas cerimónias agrícolas nativas, para pedir aos deuses uma boa colheita. Nas Ilhas Célebes, no “Dia do Sacrifício pela Colheita”, três raparigas, ao voltarem para casa ao entardecer, vão batendo no solo com tubos cheios de sementes de arroz e cantando “Golpeai, oh amigas, pois contemplamos, contemplamos o suplicante, suplicante arroz macio!”. O arroz desempenha um papel primordial como instrumento nos ritmos que acompanham estas práticas. Na Malásia ocidental e na Tailândia, para descascar o arroz fresco, num tronco de madeira estendido no solo fazem-se orifícios de diferentes tamanhos, para dentro dos quais se verte o arroz, que é triturado com maças por uma fila de mulheres.

O arroz também é um ingrediente mágico. Em certas culturas, tem servido para a adivinhação. Em 2005, um chefe religioso do santuário de Chiriku Hachimangu na ilha de Kyushu (Japão) predisse (a 15 de Fevereiro desse mesmo ano), através da interpretação de um caldo de arroz: “Este ano foi um bom caldo. Mas vi uma fenda invulgar”, e, em seguida, anunciou à população: “Deveis estar preparados para terramotos”. No domingo, 20 de Março de 2005, registou-se na ilha um terramoto de grau 7 na escala de Richter. Foi o mais forte ali registado desde 1997. Naturalmente que o arroz em si é surpreendente e, como ingrediente cultural, é-o ainda mais.